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Uma vida fictícia

2020.05.14 05:53 DreadOracle Uma vida fictícia

Nunca me faltou nada. Amor, carinho, conforto e apoio. Eu tenho tudo isso, então que direito eu tenho de me sentir tão vazio?
Quando criança, eu era apaixonado por criar estórias em quadrinhos, pouco me importando se haveria alguém para imergir no mundo que eu criei ou não. Ainda bem novo, eu e meu irmão começamos a brincar de interpretar personagens antes mesmo de saber que isso se chamava roleplay. Fizemos isso por longos anos, mas arrisco dizer que essa prática havia se tornado algo mais importante pra mim do que era pra ele. Eu não precisava de amigos, ou uma namorada (embora eu até desejasse uma), porque viver naquele mundo que eu e meu irmão criamos supria todas as minhas necessidades.
Até que começamos a brigar.
Na medida que amadurecemos, nossas ideias começaram a divergir. Eu, por ser mais novo, frequentemente me vi numa posição de submissão em que eu precisava aceitar o que me era imposto, apenas para não perder contato com aquele mundo que uma vez já chamei de lar. Mas eu só estava adiando o inevitável. Cedo ou tarde, chegaria o dia em que eu explodiria em ódio e ressentimento, arrebentando aquelas correntes que me aprisionavam no que havia se tornado uma relação psicologicamente tirânica. A semente da depressão foi plantada.
Prometi aos meus personagens, agora órfãos de um mundo, que os daria um lugar para viver. Nisso, escrevi um livro. Apresentei a minha história para alguns amigos que, para minha surpresa, gostaram muito do enredo; até que um desses acabou criticando duramente aquela obra que eu escrevi com tanto carinho: "Não curto historinhas de princesa da Disney". Como eu não tinha maturidade para lidar com críticas naquela época, eu olhei para meu trabalho e senti vergonha de mim mesmo. A partir dali, eu me comprometi a reescrever a estória até que ela estivesse bem distante de algo que pudesse ser chamado de "Disney". E foi assim que eu, depois de muito reescrever, subtraí todas as cores daquele universo mágico e o transformei em um império industrial esfumaçado, amaldiçoado pela praga e a indiferença dos ricos. O que antes era uma aventura cheia de conquistas, se tornou um passeio pela decadência humana. E ainda assim, eu não sinto orgulho do que eu criei.
Palavras não eram o bastante.
Obcecado por dar vida aos meus personagens, eu persegui o ramo artístico e me fascinei com as possibilidades da computação gráfica desde bem cedo. Antes mesmo das coisas darem erradas com meu irmão, eu já fazia meus primeiros joguinhos 2D com o Game Maker. Mas ainda assim, não era o bastante. Já fazem anos que eu me dedico a aprender modelagem, escultura e animação 3D, porque nada me traz mais satisfação do que vê-los respirando, piscando os olhos e andando. Então, se eu não puder ganhar a vida com isso, eu vou morrer tentando.
Mas ainda falta alguma coisa.
O único motivo pelo qual eu cheguei a pagar várias mensalidades de World of Warcraft era para poder me conectar com as pessoas através da interpretação de personagens (e porque eu amo draenaias). Vivenciei experiências incríveis que eu pensei ter morrido no mundo que eu havia criado com meu irmão. Mas também experimentei momentos ruins que me marcam até hoje. Meu deus, é só um jogo!, você deve se sentir tentado em dizer. Mas eu aprendi que coisas são apenas coisas, e que a diferença está no valor que atribuímos a elas. As imagens podem não ser reais, mas os sentimentos não são computação gráfica também. Parece óbvio, mas eu precisei de uma terapeuta para me dizer isso, porque eu nunca quis aceitar o impacto que o mundo irreal tinha sobre mim. Na verdade, eu nem gosto de chamar isso de "irreal", porque isso seria negar qualquer forma de experimentar essas realidades apenas por não serem palpáveis.
Enfim, eu me frustrei com World of Warcraft.
Meu último projeto no Game Maker foi um joguinho simples voltado para interpretação de personagens, onde você carrega uma imagem de fundo para representar o lugar onde a história vai se passar, usa fotos de avatar para representar os personagens, coloca sons de ambiente, música, e usa do teclado para tocar uma variedade de efeitos sonoros, desde passos até tiros de laser e magia. Nada muito complexo. Ah, e claro, tem um chat também, embora foi se tornando menos usado, já que eu e meu irmão sempre fizemos as vozes dos personagens, como se fossemos dubladores mesmo.
Mas dessa vez, eu estava lá, sozinho.
Usando uma foto minha em preto e branco, criei um personagem para representar a mim mesmo ali e, pela primeira vez em muito tempo, conversei com meus próprios personagens. Eu enlouqueci enfim, foi o que eu pensei. Sim, era eu conversando comigo mesmo. Eu criando e respondendo as minhas próprias perguntas, respeitando as crenças e personalidade de cada um deles. Alguns pareciam me desprezar, outros tentam me ajudar, preocupados comigo. Mas todos querem viver. Alguns mais, outros menos, todos anseiam por uma forma de se manifestar no mundo real, mas alguns sabem que minha sanidade está em jogo e respeitam essa condição que me torna dolorosamente humano. Minha psicóloga já tirou o peso da esquizofrenia das minhas costas, me dizendo que o que eu faço é chamado de Imaginação Ativa, uma forma de se comunicar com as figuras do inconsciente através de sua personificação. Ela até se mostrou bastante interessada no conteúdo desses diálogos, que eu passei a escrever e levar para as consultas. Se não fosse por ela, eu até hoje não me levaria tão a sério.
Estou cansado. Exausto.
A jornada à frente é longa, e tudo que eu tenho são essas vozes que eu personifiquei para me fazer companhia. Elas se tornaram minha ferramenta para suportar a solidão. As vezes me surpreendo e até me emociono com as coisas que eu "escuto". Me sinto mais acompanhado pelos meus personagens do que por muitas pessoas fisicamente presentes. Eu não sou um suicida em potencial, embora já tenha tirado meu próprio sangue, apenas para me sentir mais vivo. Só espero conseguir cumprir o meu propósito antes de ensandecer; quem sabe, transformando toda essa desgraça em entretenimento.
"A solidão não chega por você não ter pessoas ao seu redor, e sim por não conseguir comunicar as coisas que são importantes para você, ou por manter certos pontos de vista que os outros consideram inadmissíveis" — Carl Jung
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